Eleições em Campo Grande: um balanço do 1° turno de 2024

[Texto finalizado em 8/out./2024]

O fator decisivo do 1° turno em Campo Grande foi a votação de Adriane Lopes (PP). Para melhorar elaborar essa hipótese, pode-se partir de uma das principais fontes de informação (e geração de expectativas) eleitoral: as pesquisas de intenção de voto.

A maioria delas apontava para um cenário favorável a Rose Modesto (União), favorita para ir ao 2° turno desde a desistência de André Puccinelli (MDB), que liderava alguns levantamentos meses antes do pleito. Essas mesmas pesquisas apontavam, inicialmente, Adriane Lopes e Beto Pereira (PSDB) com intenções de voto menores, as quais foram crescendo ao longo da campanha.

O gráfico abaixo registra a média de intenção de votos dos quatro principais candidatos à prefeitura de Campo Grande, bem como os indecisos e as pessoas que pretendiam votar em branco ou nulo (bn). O período de pré-campanha e de campanha foi dividido em 7 partes: julho, primeira metade de agosto, segunda metade de agosto, primeira metade de setembro, segunda metade de setembro, outubro (até o dia 4) e dia 5 de outubro, véspera da eleição. Para cada período, calculou-se a média de intenção de votos de todas as pesquisas divulgadas em cada período. Para fins comparativos, adicionamos também o percentual de votos que cada candidata teve. Obviamente que, nesse último ponto do tempo, o percentual de indecisos é igual a zero.

Nota-se que Rose Modesto apareceu liderando a corrida em todos os períodos selecionados. Mas, tal desempenho foi, em média, decrescente, principalmente às vésperas da eleição. Ao final, sua votação foi ligeiramente superior à média projetada um dia antes.

Beto Pereira deu um pequeno salto quando a campanha eleitoral começou oficialmente, de meados de agosto em diante. Mas, as pesquisas de vésperas registram ou estagnação ou queda nas suas intenções de voto.

Camila Jara (PT) e as inteções de voto em branco ou nulo permaneceram relativamente estáveis ao longo do período e os resultados as urnas não estiveram muito longe do projetado nos levantamentos.

Agora, vamos prestar atenção nas duas linhas restante: indecisos e Adriane Lopes. Na primeira metade de setembro (set_01) , a média dos indecisos entra em movimento de declínio. Exatamente no mesmo período, o crescimento da média das intenções de voto em Adriane começa a ser detectado pelas pesquisas. Comparando-se as duas linhas, nota-se que elas caminham espelhadas daí em diante. Enquanto Rose e Beto estagnavam, os indecisos aparentemente estavam saindo de sua posição de dúvida em direção à atual prefeita.

Todos os institutos captaram o crescimento de Adriane na véspera das eleições, sendo que as diferenças foram nos números, isto é, na força e tamanho da tendência crescente de Adriane.

Abertas as urnas, ela se mostrou mais forte ainda do que o esperado: terminou o 1° turno liderando a disputa e invertendo as posições relativas – se antes Rose Modesto aparecia como favorita, agora Adriane demonstra maior potencial de vitória. Antes de dissecar tal potencial, é necessário analisar o maior derrotado desta eleição: o deputado federal Beto Pereira.

O PSDB repetiu a fórmula bem-sucedida de 2022: apoio (tímido) de Bolsonaro a seu candidato + investimento financeiro (muito) + coligação ampla, com muito mais tempo de televisão que as rivais. Essa receita básica das campanhas eleitorais brasileiras falhou, contudo, em 2024 em Campo Grande. A maior pontuação em intenções de votos que a candidatura de Beto Pereira alcançou foi de 27% no final de setembro (Pesquisa 100% Cidades). Em todas as demais, sua pontuação ficou abaixo desse teto e, ao final, obteve 25,96% dos votos, próximo daquele teto máximo.

Então, a questão a ser respondida é: por que esse foi o teto de Beto Pereira? Tal teto foi resultante da força de suas principais adversárias ou por limitações intrínsecas à sua campanha?

Em 2022, Beto Pereira foi eleito com 97.872 votos, dos quais 16.444 vieram de eleitores de Campo Grande. Ou seja, apenas aproximadamente 17% dos seus votos. Dessa perspectiva, a campanha de Beto Pereira fez um trabalho eficaz de redução de seu desconhecimento perante o eleitorado da capital de MS. Obteve mais de 115 mil votos em 2024, sete vezes mais que sua votação dois anos antes. Embora tais comparações não sejam muito corretas, pois são cargos distintos e circunstâncias diferentes, o fato é que Beto Pereira se tornou mais conhecido do eleitor campo-grandense, cresceu, mas estacionou em aproximadamente 26%, conforme boa parte das pesquisas apontou.

Situação semelhante, mas invertida, parece ter sido a de Rose Modesto: obteve 113.738 votos no 1° turno das eleições de 2016 em Campo Grande e 169.660 no segundo. Capitalizou tais votos e alcançou 49.435 eleitores de Campo Grande em 2018, quando foi eleita para deputada federal e, em 2022, obteve 68.620 votos campo grandenses para sua candidatura ao governo do estado.

Logo, se Beto Pereira começou “por baixo”, subiu e estacionou, Rose Modesto já começou alto, oscilou e também estacionou em 131.525 votos no 1° turno da capital, pouco mais que seu desempenho no 1° turno de 2016, mas bem abaixo de sua votação no 2° turno da mesma eleição. O eleitorado campo grandense cresceu aproximadamente 8% entre 2016 e 2024 e a votação de Rose cresceu 15% no mesmo período. Aumento “líquido” de 7%, portanto. O que não é pouco, mas foi insuficiente para levá-la ao 2° turno em primeiro lugar, novamente.

Com ambos estacionados, volta-se à hipótese formulada no primeiro parágrafo: a o desempenho de Adriane Lopes foi o fator chave deste 1° turno. A questão, agora, é compreender de onde veio a força de Adriane.

Minha hipótese é que Rose Modesto e Beto Pereira foram os dois candidatos mais próximos do que se poderia chamar de “centro” na política sul-mato-grossense. Centro-direita, mas ainda assim ao centro porque a mediana do eleitorado campo-grandense é assimétrica em direção ao polo direito do espectro político, conforme a comparação feita no próximo parágrafo.

A votação de Camila Jara (9,43%) em 2024 é praticamente idêntica à de Pedro Kemp (9,4%) em 2020. Esse parece ser o tamanho do eleitorado mais puramente de esquerda na capital atualmente. Como Lula fez pouco mais de 187 mil votos no 2° turno de 2022 em Campo Grande, tal cifra deve estar próxima do teto da esquerda e da centro-esquerda somadas em Campo Grande. Por sua vez, Jair Bolsonaro obteve 313.906 votos no 2° turno de 2022. Esse valor pode ser nossa referência para o tamanho da direita e da centro-direita na capital. A assimetria a favor da direita aparece inclusive entre os candidatos nanicos: a votação de Beto Figueiró (NOVO) foi três vezes maior que a de Luso Queiroz (PSOL): 2,45% x 0,7%.

O eleitorado potencialmente mais à centro-esquerda que poderia alimentar as intenções de voto de Camila Jara provavelmente caminhou com Rose Modesto neste eleição, dado seu perfil e discurso popular e seus projetos sociais. Com apoio oficial de Bolsonaro, é provável que Beto Pereira tenha captado pelo menos parte do eleitorado de centro-direita da capital. Mas, em regra, fatores ideológicos pesam menos entre eleitores mais próximos ao centro, tornando-os muito similares e suas intenções de voto mais flutuantes.

Sob a hipótese de que ambos, Beto Pereira e Rose Modesto, estavam disputando, pelo menos parcialmente, a mesma fatia do eleitorado, suas votações se sobrepuseram na mesma base, limitando uma à outra. Isso explicaria sua dupla estagnação. Note-se que, no gráfico acima, as tendências de crescimento da média de intenção de voto de Beto Pereira e Adriane Lopes começam conjuntamente com a tendência de declínio da linha de Rose, coincidindo também com o início da campanha na TV.

Se as intenções de voto de Camila Jara, dos votos em branco e nulo permaneceram estáveis, só havia duas fontes de intenções de votos disponíveis: indecisos e votos das outras candidaturas rivais. Como não havia indecisos o suficiente, pode-se concluir que os três primeiros colocados tiraram votos uns dos outros. E, no caso de Adriane Lopes, ela alcançou, muito provavelmente, uma proporção maior de indecisos que os seus rivais.

Pela nossa hipótese, portanto, Adriane Lopes angariou com sucesso os votos da centro-direita e, principalmente, da direita campo-grandense. Ao que tudo indica, a prefeita conseguiu ocupar largas parcelas desses espaços no eleitorado, principalmente na reta final da campanha. É difícil avaliar o quanto a estratégia de campanha e o material publicitário influenciam na decisão de voto. Mas, o fato é que Adriane Lopes se esforçou, mais que seus rivais (exceto, é claro, Beto Figueiró), em se apresentar como a candidata “que tem lado”, que veiculou vídeos de campanha empunhando armas e finalizou sua campanha enfatizando o trinômio “pátria, liberdade e família”.

Por fim, cabe indagar: o que vai decidir o 2° turno? Muito provavelmente os eleitores de Beto Pereira. É muito mais provável que o eleitorado de esquerda se abstenha ou vote em Rose Modesto. Parte do PT, liderados por Vander Loubet e Zeca do PT, já questionava se o lançamento de candidatura própria era melhor estratégia para o partido (ver a nota de fevereiro de 2024), sinalizando a possibilidade de compor com outras forças políticas, Rose Modesto inclusive.

Sob a suposição extrema, e pouco realista, de que que todos os votos de Camila Jara migrem para Rose Modesto, ela mal ultrapassará a própria votação obtida no 2° turno de 2016, quando perdeu a eleição para Marquinhos Trad. Ou seja, será insuficiente.

Por outro lado, a senadora Tereza Cristina declarou, no domingo da eleição do 1° turno, que Bolsonaro errou em sua escolha em Campo Grande e, no mesmo dia, já buscou apoio do governador Riedel e do PSDB para Adriane no 2° turno. Dado que Rose Modesto saiu do PSDB em divergência com suas lideranças, não parece muito provável que reate com o partido neste momento.

Uma nota histórica importante: a última (e única) virada eleitoral em Campo Grande foi no longínquo ano de 1996, quando Zeca do PT ficou em 1° lugar no primeiro turno, mas perdeu no 2° turno por apenas 411 votos para Puccinelli.

Por fim, em resumo: a força própria demonstrada na votação do 1° turno, as alianças potenciais e a história das eleições em Campo Grande inverteram o cenário inicial da campanha: agora Adriane Lopes é favorita e Rose a desafiante.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *